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14 de março de 2015 - 15:43Análises, Automobilismo, Curiosidades, História

Plunct Plact Zum

Há exatos 20 anos, a McLaren iniciava uma nova parceria técnica. Depois da exitosa era Honda, na qual ganhou quatro títulos mundiais em cinco temporadas, o time viveu dois anos-tampão, um como cliente da Ford e outro com a Peugeot, até acertar com a Mercedes.

Como todo início de parceria, já se imaginava que haveria dificuldades. Assim, para ajudar o ainda inexperiente Mika Häkkinen e agregar carisma ao novo momento, a McLaren apostou numa figura veterana: Nigel Mansell.

Ron Dennis não o queria, já se sabia desde então. Mansell nunca contou com sua admiração, sempre foi visto por ele como alguém de pouca técnica e de difícil trato. Mas a posição da Mercedes, que retornava à F1 depois de praticamente 40 anos ausente, foi fundamental na decisão de contratá-lo. Dennis engoliu o sapo e apertou a mão de alguém que desprezava. Ossos do ofício.

Já nos primeiros testes a situação se mostrou mais difícil do que o esperado. Mansell colocou o traseiro no carro e percebeu que estava numa roubada. Além de feio, era um modelo duro, de condução exigente, que necessitava de muita força física para colocá-lo na trajetória correta nas saídas de curva. Força que, aos 42 anos, já não era mais a mesma da juventude.

E nem o ânimo. Campeão da F1 em 1992, campeão da Indy em 1993, tendo retornado à F1 para substituir Ayrton Senna na Williams em 1994, o Leão vinha de uma vitória em Adelaide, na última etapa da temporada anterior. Tinha contrato vigente para permanecer no time em 1995, mas Frank Williams mudou de ideia. Percebeu que a F1 vivia um outro momento e precisava de alguém jovem que não se importasse em passar dias e dias em testes exaustivos. Mansell era uma estrela, não o trabalhador de que ele precisava.

Assim, Frank chamou David Coulthard e deu um pé na bunda de Mansell – contratos na F1 existem para serem quebrados, embora Giedo Van der Garde tenha uma visão diferente. Sua carreira poderia ter se encerrado ali. Mas o convite da Mercedes veio e o piloto aceitou aquele desafio sem pesar muito bem do que se tratava. A McLaren precisava do mesmo trabalhador que a Williams. O problema é que isso não estava no pacote Mansell.

Mansell não cabia direito no carro. E não queria fazer muito esforço, também.

Mansell não cabia direito no carro. E não queria fazer muito esforço, também. (Foto: Getty)

Quando viu o tamanho da encrenca, Mansell recuou. Além das dificuldades normais de um carro mal nascido e de um motor totalmente novo de uma fábrica ainda inexperiente na categoria, o MP4/10 lhe apresentava um outro desafio: o cockpit. O inglês sempre foi um piloto grandalhão e forte, diferente dos padrões da F1, que desde a chegada de Adrian Newey praticamente transformou seus cockpits em vestimentas. E essa roupa não o vestia. Mansell não se movimentava bem, reclamava de falta de espaço para seus ombros largos.

Depois de algumas discussões, ficou definido: a McLaren construiria um novo carro só para ele, com os espaços de que precisava. Mas isso ia demorar e, por isso, o inglês ficaria de fora das duas primeiras corridas do campeonato.

Todos estranharam a decisão, que já era um sinal de que a parceria começou mal. E continuou mal. Quando Mansell finalmente estreou na McLaren, no GP de San Marino, sua forma era irreconhecível. Foi nono no grid, ante um sexto de Mika Hakkinen, mais de um segundo à sua frente. Na corrida, um desempenho pífio. Saiu da pista, quebrou a asa dianteira e precisou trocá-la nos boxes. Quando retornou, deu uma fechada em Eddie Irvine que arrancou o spoiler do irlandês e acabou com um pneu traseiro furado, o forçando a outro pit stop. Acabou em décimo, duas voltas atrás do vencedor Damon Hill, e uma volta atrás do companheiro de equipe, que foi quinto.

No GP da Espanha, a gota d’água. O desempenho foi ainda pior, com duas saídas de pista. Depois da segunda, era 22º entre 24 carros quando resolveu parar nos boxes e abandonar a corrida. Saiu dizendo que o carro era inguiável. E Ron Dennis o achava ingerenciável. O resultado óbvio foi um divórcio. Da porta para fora, amistoso. Mas como nenhum dos dois se suportava, provavelmente a briga foi feia. Substituído por Mark Blundell, um sujeito que ninguém nunca entendeu direito como tinha ido parar na F1, foi assim que acabou, melancolicamente, a carreira de um dos campeões mais talentosos e carismáticos que a F1 já teve.

Vinte anos depois, a McLaren vive situação muito semelhante. Depois de vinte temporadas de parceria com a Mercedes, inicia uma nova era com a Honda. E, embora de passado glorioso, hoje a Honda é tão novata na F1 quanto a Mercedes de vinte anos atrás. Ainda perdida entre unidades de potência, os japoneses não conseguem fazer o carro da McLaren andar, seja no sentido literal ou figurado. No literal porque o carro praticamente não sai dos boxes. No figurado porque, quando sai, não anda nada.

Para compor um bom time de pilotos nessa nova fase, a McLaren abriu mão do jovem Kevin Magnussen para contratar um renomado campeão: Fernando Alonso. Que, tal qual Nigel Mansell, já está na reta final da carreira e não tem mais muito tempo – nem paciência – a perder. O relacionamento de Alonso com Ron Dennis também não é bom, depois da péssima convivência entre eles e Lewis Hamilton na temporada de 2007.

Depois dos testes da pré-temporada, ficou claro que Alonso percebeu a roubada em que se meteu. Para piorar a situação, ainda houve o suspeito acidente em Barcelona, no qual o espanhol perdeu a consciência, ao que tudo indica, antes da pancada no muro. Especula-se que Alonso tenha tomado um choque do carro, ou tenha tido um mal súbito. Ou, sabe-se lá, teve uma intensa revelação de que aquele carro, tal qual Plunct Plact Zum, não vai a lugar nenhum. E apagou.

Uma imagem rara: uma McLaren de 2015 na pista, e com Alonso. (Foto: Getty)

Uma imagem rara: uma McLaren de 2015 na pista, e com Alonso. (Foto: Getty)

A ausência de Fernando Alonso no GP da Austrália, assim como a de Nigel Mansell no GP do Brasil de vinte anos atrás, causou surpresa. O acidente não foi forte o suficiente para provocar uma convalescença tão longa, o que deixa toda a situação sob suspeita. E, se eu tivesse dinheiro para apostar, apostaria que ele também não corre na Malásia. E não necessariamente por problemas de saúde.

Como Mansell, Alonso está de saco cheio. Está há quase dois anos sem ganhar corridas, perdeu cinco temporadas entre os problemas da Ferrari e, embora soubesse que o primeiro ano na McLaren-Honda não seria de vitórias e títulos, certamente não esperava estar nas últimas posições do grid. A McLaren vai largar na última fila do GP da Austrália, algo inédito em sua história. Terá ele paciência para encarar um ano desses?

E daí surgem especulações. E a que eu mais gosto – até porque fui eu quem inventei –, é que o espanhol foi vítima de alguma falha técnica no carro da McLaren. E está utilizando isso como álibi para se livrar de um contrato que não deseja mais cumprir. Se, de fato, ele levou um choque do carro que quase o matou, é motivo de sobra para interromper a parceria sem grandes dificuldades. As cartas estão na mão do bicampeão e ele vai jogar como quiser. E aí Alonso, tal qual Nigel Mansell e Plunct Plact Zum, pode partir. Sem problema algum.

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3 comentários

  1. Cláudio F1 disse:

    Eu gosto deste blog porque ele é bem atualizado.

  2. Concordo totalmente. Acho que ele tem as armas suficientes para não voltar pra McLaren.

  3. Herik disse:

    A situação atual da McLaren é ainda pior hoje do que em 95.

    Se antes a Mercedes já tinha um motor já estabelecido na categoria pelos anos de Sauber, a Honda não. Além disso hoje falta a grana de um patrocínio máster numa equipe de uma categoria em crise.

    Os tempos são muito nebulosos para o lado de Working.

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